A beleza total
Carlos Drummond de Andrade
A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.
Contos plausíveis - Carlos Drummond de Andrade - 2012.
A morte de Gertrudes pode ser compreendida como
símbolo
a) do sacrifício necessário para que a beleza se tornasse imortal.
b) da necessidade de fuga de um mundo obcecado pela
perfeição.
c) da destruição provocada por um dom que deveria ser
celebrado.
d) do modo como o ideal de beleza consome a própria identidade
da mulher.
A morte de Gertrudes simboliza como a obsessão pela beleza e pela perfeição acaba anulando sua liberdade e sua própria vida. Ela fica confinada e reduzida à sua aparência, mostrando que a beleza, que deveria ser um atributo positivo, passa a controlar e destruir sua existência.
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