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(EEAR - CFS 1/2027) - QUESTÃO

A beleza total
Carlos Drummond de Andrade
A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.

Contos plausíveis - Carlos Drummond de Andrade - 2012.

O conto “A Beleza Total”, de Carlos Drummond de Andrade, recorre a uma narrativa absurda para expor 
a) a ironia diante de uma sociedade que transforma a beleza feminina em prisão. 
b) a fragilidade emocional das pessoas diante de padrões de beleza fora do comum. 
c) a vaidade excessiva da personagem Gertrudes, que provoca sua própria ruína. 
d) o sarcasmo do autor ao mostrar que a beleza, dom divino, pode ser imortal e triunfar sobre a morte.


O conto usa o absurdo e a ironia para mostrar que a beleza extrema, em vez de trazer liberdade, transforma Gertrudes em prisioneira de sua própria aparência. Ela é confinada, perde sua liberdade e acaba morrendo por causa das consequências de sua beleza.

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